Assim mesmo
Tem dias que é assim... a gente para (sem acento, mas é do verbo parar) e se dá conta do quão surreal são certas coisas. Assim, em duas coisas só a título de exemplo que me aconteceram entre ontem e hoje, para ilustrar o quão se torna desgostoso fazer a coisa certa.
Aí eu falando na aula sobre princípios. Seja em qualquer seara, fora ou dentro do Direito devemos entender por princípio, aquilo que é base, alicerce, algo fundante, começo de conversa, o que nos inspira. E, falando dos princípios da Administração Pública, há sempre uma previsível resistência “Ah, profª, não é bem assim, na prática os gestores, esses políticos safados não cumprem nada disso, moralidade, eficiência....” Ok, ok, sabemos disso, mas quem os elege? E lógico que sabemos a resposta. Mas a direcionamos como algo fora de nós, como vindo daquele pessoal da periferia, aquele analfabeto, ou semi que não tem noção das coisas. E, sinceramente, cada vez mais tenho dificuldade de identificar o tipo. Porque lecionando numa faculdade particular, num bairro nobre da cidade, deparo-me no caminho da aula com duas pessoas – cada uma em pontos diferentes do engarrafamento do trânsito - que descem minimamente o vidro fumê do carro de luxo e cospe fora papéis e restos de algum alimento. Coisa horrível de se ver. Deprimente. Aí a pergunta, quem é mesmo o analfabeto, o que não tem consciência? Não seria esse que está por aí, dirigindo um carrão, num bairro classe alta e sem qualquer classe, sem qualquer princípio? Ou melhor, inspirado por um princípio que certamente não se idêntica com os meus. É um desalento. É analfabeto que consigo ver, aquele analfabeto político de Bertold Brecht, qualquer que seja ele.
Idem para outra situação que desestimula a andar na linha. Cai em minhas mãos uma solicitação chorosa de uma esposa dedicada de um policial demitido após processo disciplinar. A alegação de crime, segundo ela, não ficou devidamente provada e toda a corporação está comprometida em não acessar a verdade. Bem, é o que ela diz. Bem, o que tenho de fazer: dar todo o encaminhamento formal. E analisar e reler os laudos do processo e estudar o estatuto dos policiais militares e até mesmo e conversar pessoalmente com um capitão que lida com casos como o narrado pela senhora. Enfim, nada me exige que me doe em um esforço pessoal enfático para além daquele a que me é atribuído. Mas, tomada talvez pela sensibilidade com que a senhora narra seu pleito, senti-me tocada e impelida a encontrar qualquer brechinha que fosse que pudesse iluminá-la no seu intento. Aí, chega a noite, dou uma carona na Rodoviária e me aparece um policial militar, sem qualquer ínfimo tato para lidar com pessoas, bate no vidro do carro e diz que não posso ficar ali. Leia-se, é área de embarque e desembarque e ele que não é policial de trânsito – e nem precisaria ser para saber – desconhece que a placa não avisa que é proibido parar e sim proibido estacionar. E ainda se arvora a fazer anotações. A pergunta é: quem sou eu para discutir com uma criatura dessas armada? A pergunta é: que crédito se deve dar para aquele outro policial que se envolvendo em confusão fora penalizado com demissão? Todos pagam por um ou simplesmente eu ando na contra-mão das coisas? É melhor deixar de lado, fingir que não vê, fingir que acredita, fingir que se é educado, fingir sempre e a todo tempo?
No princípio comecei falando de princípios no fim, outra coisa não é, senão princípios também. Quais mesmo devemos ( u conseguiremos) conservar? É complicado...
Oh Madre Tereza, salva-me com teus ensinamentos, porque ainda não tenho tanta sapiência:
Assim mesmo...
Madre Tereza de Calcutá
Muitas vezes as pessoas são egocêntricas,
ilógicas e insensatas.
Perdoe-as assim mesmo.
Se você é gentil, as pessoas podem acusá-la de
egoísta, interesseira.
Seja gentil assim mesmo.
Se você é vencedora, terá alguns falsos
amigos e alguns inimigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.
Se você é honesta e franca,as pessoas
podem enganá-la.
Seja honesta e franca assim mesmo.
O que você levou anos para construir,
alguém pode destruir de uma hora para outra.
Construa assim mesmo.
O bem que você faz hoje pode
ser esquecido amanhã.
Faça o bem assim mesmo.
Dê ao mundo o melhor
de você, mas isso pode nunca ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.
Veja você que, no final das contas,
é entre você e Deus.
Nunca foi entre você e as outras pessoas.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010

Bem, estou aqui na madruga, finalmente visitando os blogs (aqui e aqui) de amigas há muito tempo sem minha visita. Muito pelos bloqueios virtuais que rolam lá do trampo, (sites oficiais tem isso), mas, muito pela correria mesmo...
Enfim, hoje, cheguei feliz em casa, apesar de não ter começado o dia tão bem assim, dado os pequenos aborrecimentos de trânsito, (às vezes acho que moro dentro de um engarrafamento!), fato cotidiano nas ruas de Salvador. Feliz, contudo, por, no final do mês de Abril, ainda ganhar presente de aniversário. Parece brincadeira, né? Mas não, fiquei boba de feliz.
Tenho me ausentado há um bom tempo das práticas de Yoga, tendo apenas praticado em casa, uma meditaçãozinha ali, um náuli krya aqui, enfim, nada de destaque, o que culminou numa impaciência, numa ausência sentida, tanto que até fiz um post insano no flog ontem. E aí, não é que hoje, ganho da minha dentista querida – e já amiga! – um CD de mantras: “Simplesmente Santsang” de Marco Schultz?
Como o site próprio ensina: O Sat (satya) é a Verdade Absoluta. Sang (sangha) somos nós, filhos desta Verdade Transcendental. Satsang é o encontro de pessoas dedicadas ao autoconhecimento, à realização do Eu Maior, da Eterna Consciência Presente, Deus...
Enfim, Deus, Deusa, o TODO! E era bem nisso que pensava essa semana, ou melhor, nessas novas semanas desde que, em Março comecei meu ano novo astrológico, quando fiz aniversário. Já naquele mês, recebi o convite para ser madrinha de mais um casamento, o que me fez participar mais ativa e dedicadamente à celebração da união de meu querido amigo Mô.
Mô – cujo casamento daria um post à parte – também está esperando uma menininha. Também porque duas outras amigas também estavam. Estavam, porque até o começo da semana, uma das duas - que só iriam parir em Maio - não espera mais. Agora, Bernardo já se antecipou e deu as caras antes que Abril acabasse. E mais,um novo rebento está vindo por aí, o filho da minha instrutora de Yôga. Será que o ciclo de coincidências se fecha? Duvido... Até porque, sabemos, acredito que coincidências não existem. Se Bernardo foi meu primo lindo que atravessou o Portal e transcendeu essa vida, um outro Bernardo, também cheio de luz, veio encher nossos corações aqui na Terra. Além disso, Sarah, Rafaela e esse novato que ainda não sabemos se ele ou ela, conduzem-me inevitavelmente a uma frase memorável: “Um bebê é a opinião de Deus de que a vida deve continuar. ' (Carl Sandburg).
Pois bem, continuando... Casamentos (madrinha de três já!), noivado (anel desde o Natal passado) e bebês à vista, esse é mesmo um ano de Vênus, pelo menos mais dois casórios até o meio do ano me aguardam. Mas, mais que a celebração, mais que a festa, que sobressaia o sentimento, o bem-querer mútuo, o amor mesmo. Acho sim todos esses festejos matrimoniais muito dispendiosos (faço altas ponderações a aderi-los) e penso que se não valer o amor intenso e dedicado de um parceiro ao outro, aí que é um engodo mesmo (des)gastar-se tanto de uma só vez.
Mas, feliz, retomando a minha rota, eis que o grande dia, o meu grande dia finalmente - e novamente!- chegou. Aquele que para mim sempre o foi. O dia de hoje! Eis que o dia de hoje sempre é grande se o fazemos como tal. E hoje, sim, foi mais um dia grandioso.
E eu que pensei que a calça legging super fashion, a mim presenteada por uma aluna na última quarta-feira 28, teria sido o presente para fechar. Mas, invariavelmente, o Universo nos surpreende ao nos abrir. Para o novo, o inusitado, o inesperado, o nosso novo ser de cada dia, nós Satsang.
P.S. Na foto, há alguns anos, Giuliana (filha de outra amiga) que nem Sarah e Rafaela estão agora: quase prontinhas para virem a este mundo, só esperando a hora certa.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Caminhada Filosófica
Estava no Shopping, precisava resolver pendências jurídicas no SAC (Serviço de Atendimento ao cidadão que une a um só tempo juizados, cartórios, junta comercial, etc). Não sou muito fã de Shopping, mas admito que é um lugar prático e de certo modo inspirador, considerando as vitrines impecáveis ou a rentabilidade das lojas populares ou mesmo aquelas pessoas que por ali transitam como se fosse seu habitat natural, mas não quero aqui analisar o que muitos chamam de “templo de consumo”, aliás, nem pensava nisso quando avistei uma loja de que gosto muito. Lembrei-me de que queria uma camisa básica, ou mesmo uma camiseta para colocar por sob o blazer e adentrei a loja. O vendedor reconheceu-me, sorriu e aproximou-se prontamente para cumprimentar-me. Não, não sou de bater ponto por ali, muito embora admire bastante as roupas e produtos de lá, o meu bolso é que não admira tanto. Whatever, realmente sei que ele não esquecera a última vez em que estive por lá, mas aí são outros quinhentos. O fato é que lhe pedi para ver o que ele tinha em matéria de “básicas” e ele me disse: “Ah, agora, temos apenas algumas estampadas, talvez não sirvam para o que quer” foi quando eu me deparei com uma estampando a imagem de Ganesha e desabafei:
“Eu tenho de concordar com alguns intelectuais, ‘o que seria do Brasil, sem rede Globo?’, arfff agora tudo é Lord Ganesha, Shakiti, Shanti, Hare Baba!! Quem agüenta?”
Ele riu, mas retrucou: “ Não, não. É apenas uma coleção temática, temos também de outros países, como essa com Camelos em homenagem à Arábia”...
Enfim, que seja, mas concordamos que havia sentido naquela afirmação, pois só havia um único exemplar da homenagem indiana, enquanto todas as outras ainda enchiam a arara...
Mas aí pensando em Camelo, lembrei-me de um livro de Osho* que eu comprara há alguns anos na livraria da Rodoviária, quando fazia a rota Salvador-Alagoinhas semanalmente. Muitas vezes, a única coisa funcionando de manhã cedo além da lanchonete, era o misto de banca de revistas e livraria e, como me ensinara meu amigo Teoda, não havia lugar melhor para se gastar pouco e se informar muito – ainda que superficialmente - do que uma banca de revista. Seguindo esse raciocínio, melhor então seria uma banca-livraria em que se podia, além de ver as capas de revistas e jornais, folhear alguns livros. Melhor também é que eu não estava desempregada (como estávamos à época) e podia comprar alguns exemplares e, assim, ir um pouco além das manchetes, sem contar que sempre dispunha de um certo tempo ocioso antes que meu ônibus chegasse. E naquela rodoviária, eu sonolenta, começava algumas leituras interessantes. Foi assim que conheci esse livro de Osho no qual citava a história do Camelo.
Na verdade, o que Osho nos conta é uma alusão a Nietzsche, que compara as fases evolutivas do homem ao que ele chamava de fase do camelo, do leão e da criança, numa metáfora muito interessante. E nos ensina:
“Cada ser humano tem de absorver e assimilar a herança cultural de sua sociedade – a sua cultura, a sua religião, a sua gente. Ele tem de assimilar tudo o que o passado disponibilizou. Tem de assimilar o passado; é isso que Nietzsche chama de estágio de camelo. O camelo tem a capacidade de armazenar no seu corpo enormes quantidades de comida e água, para sua extenuante jornada pelo deserto.”
E continua explicando que essa é também a situação do individuo humano e quando assimilamos o passado, ficamos livres dele. O que é diferente de memorizar, porque assimilar, tal como fazemos ao assimilar a comida que ingerimos, é não pensar mais nela. Isso porque ela já se incorporou de tal forma em nós que se tornou parte de nós, nosso sangue, nossos ossos, enfim.
O interessante é pensar que ele nos ensina que apesar dessa capacidade impressionante do camelo, isso é apenas o primeiro estágio. Depois ainda temos o estágio do leão, “porque o chega uma hora em que o camelo tem de seguir em frente e tornar-se leão”, é quando ele reage a toda a autoridade. Então o leão é uma reação ao camelo.
Deve ter sido com esse pensamento que saí da loja, a que eu admirava tanto pela capacidade de transformação, pensando no estágio camelo e me propondo a ser o estágio leão. Quando “o indivíduo descobre sua própria luz interior como fonte suprema de todos os valores autênticos” e quando “toma consciência da sua obrigação básica com relação à sua própria criatividade interior” citando agora os trechos de Osho, mas, por óbvio, naquele momento lembrava-me apenas que o estágio do camelo, por ser o da assimilação, não sabe dizer não. E aí volta a frase dos intelectuais. É que problema não é assistir a isso ou a aquilo, ler isso ou aquilo, mas não ter de necessariamente engolir tudo a que se nos oferecem. É termos resguardadas a nossa capacidade de se indignar, de contrapor-se, de rebelar-se... Pensando assim, segui ao SAC.
Pausa.
O melhor, no entanto, foi agora, nesse dia chuvoso, lembrando-me desse episódio, encontrar-me sob essa percepção. Não a de me dizer leão, que nega, que enfrenta, que discorda, que reage, mas na fase da criança, que desponta. Até porque segundo esses pensadores, (Osho ou Nietzsche) as fases do camelo e do leão são passíveis de existirem mutuamente, ainda que ambos entendam ser muito mais comum encontrarmos camelos do que leões. Acrescentam ainda que “do camelo para o leão, trata-se de uma evolução. Do leão para a criança, trata-se de uma revolução.”
Lembrando ainda daquele dia: dirigi-me à Polícia Federal e, como na fase camelo, revelava toda a minha assimilação, vestia-me séria, com terninho preto, básico, discreto, maquiagem e cabelos impecáveis, como se deve proceder a uma postura séria perante uma autoridade. Aí o engraçado que me rio agora, uma hora o leão cansa de rugir, de bradar, é quando ele deixa de RE-agir (andar de ré, de certa forma) e simplesmente agir. Parecia-me feliz porque havia negado a assimilação alheia, acerca das coisas da novela global do momento, mas eu era tão camelo quanto, com relação a minha própria roupa, não fosse pelo fato, pelo detalhe, situação inusitada a que fui exposta.
A funcionária que atendia a uma pessoa que estava ao meu lado, virou-se para mim, inquieta que estava e finalmente destampou: “ei, não saia antes que te pergunte onde você comprou esses óculos lindos” . Mas, ora, ora, sorri. Senti-me lisonjeada, por chamar-lhe atenção para tanto. Ela devia mesmo estar achando uma coisa intrigante, uma pessoa aparentemente toda séria usando ali, óculos coloridos, roxo, lilás, “que cor é essa mesmo?”, perguntou.
Respondi-lhe tranquilamente onde o adquirira – para mim a idéia de autenticidade perpassa bem mais por quem usa e não pela unicidade da peça, (tipicamente uma fase leão em que se nega a portar-se igualmente aos demais) - e então, quando ela sorriu agradecida, completei pretenciosamente natural:
“Lilás é o novo preto.”
E ponto. E dei um sorriso Monalisa. E ainda fiquei ali o tempo ínfimo que me faltava para resolver minha pendência. E saí de lá. E certamente a deixei com alguma dúvida “quem é essa para dizer o que é o novo ou não?” ou como minha amiga Juli, perguntou-me depois:
“Quem disse isso ???”
“Ninguém – respondi. Ou melhor, eu. Eu posso tudo. E se eu quiser que seja o novo preto assim será. Segue-me quem quiser.”
“Ah é você pode, vc saiu na revista....” deu um sorriso maroto.
E rimos juntas.
Mas não por isso, mas por sentir-me na nova fase. Não na dependência do camelo, não na independência do leão, mas na “inocência da pessoa que descobre que não existe nem dependência nem independência. A vida é interdependência”. Nem o “sim”, nem o “não”, nem o “eu”, nem o “você”, mas a consciência do todo.
E no momento lilás dos meus óculos, permiti-me ser não a assimilação do passado, não a reação contra o que pode vir a acontecer, mas simplesmente permiti-me sentir plenamente o presente e pensar deliberadamente, eu decido o que é e o que não é em minha vida. Porque a “criança” simplesmente é.
*Livro do Osho: Liberdade – A coragem de ser você mesmo.
----------------------------
Texto escrito numa tarde chuvosa de maio de 2009 e postado apenas hoje, agora que tenho um blog. E, mais que isso, tenho uma nova colega de trampo que não pára de me elogiar meus óculos coloridos.
Fica a dica, se a vida não nos dá tantas cores quantas queremos, façamos nós a nossa parte de enxergar através das cores que escolhemos.
“Eu tenho de concordar com alguns intelectuais, ‘o que seria do Brasil, sem rede Globo?’, arfff agora tudo é Lord Ganesha, Shakiti, Shanti, Hare Baba!! Quem agüenta?”
Ele riu, mas retrucou: “ Não, não. É apenas uma coleção temática, temos também de outros países, como essa com Camelos em homenagem à Arábia”...
Enfim, que seja, mas concordamos que havia sentido naquela afirmação, pois só havia um único exemplar da homenagem indiana, enquanto todas as outras ainda enchiam a arara...
Mas aí pensando em Camelo, lembrei-me de um livro de Osho* que eu comprara há alguns anos na livraria da Rodoviária, quando fazia a rota Salvador-Alagoinhas semanalmente. Muitas vezes, a única coisa funcionando de manhã cedo além da lanchonete, era o misto de banca de revistas e livraria e, como me ensinara meu amigo Teoda, não havia lugar melhor para se gastar pouco e se informar muito – ainda que superficialmente - do que uma banca de revista. Seguindo esse raciocínio, melhor então seria uma banca-livraria em que se podia, além de ver as capas de revistas e jornais, folhear alguns livros. Melhor também é que eu não estava desempregada (como estávamos à época) e podia comprar alguns exemplares e, assim, ir um pouco além das manchetes, sem contar que sempre dispunha de um certo tempo ocioso antes que meu ônibus chegasse. E naquela rodoviária, eu sonolenta, começava algumas leituras interessantes. Foi assim que conheci esse livro de Osho no qual citava a história do Camelo.
Na verdade, o que Osho nos conta é uma alusão a Nietzsche, que compara as fases evolutivas do homem ao que ele chamava de fase do camelo, do leão e da criança, numa metáfora muito interessante. E nos ensina:
“Cada ser humano tem de absorver e assimilar a herança cultural de sua sociedade – a sua cultura, a sua religião, a sua gente. Ele tem de assimilar tudo o que o passado disponibilizou. Tem de assimilar o passado; é isso que Nietzsche chama de estágio de camelo. O camelo tem a capacidade de armazenar no seu corpo enormes quantidades de comida e água, para sua extenuante jornada pelo deserto.”
E continua explicando que essa é também a situação do individuo humano e quando assimilamos o passado, ficamos livres dele. O que é diferente de memorizar, porque assimilar, tal como fazemos ao assimilar a comida que ingerimos, é não pensar mais nela. Isso porque ela já se incorporou de tal forma em nós que se tornou parte de nós, nosso sangue, nossos ossos, enfim.
O interessante é pensar que ele nos ensina que apesar dessa capacidade impressionante do camelo, isso é apenas o primeiro estágio. Depois ainda temos o estágio do leão, “porque o chega uma hora em que o camelo tem de seguir em frente e tornar-se leão”, é quando ele reage a toda a autoridade. Então o leão é uma reação ao camelo.
Deve ter sido com esse pensamento que saí da loja, a que eu admirava tanto pela capacidade de transformação, pensando no estágio camelo e me propondo a ser o estágio leão. Quando “o indivíduo descobre sua própria luz interior como fonte suprema de todos os valores autênticos” e quando “toma consciência da sua obrigação básica com relação à sua própria criatividade interior” citando agora os trechos de Osho, mas, por óbvio, naquele momento lembrava-me apenas que o estágio do camelo, por ser o da assimilação, não sabe dizer não. E aí volta a frase dos intelectuais. É que problema não é assistir a isso ou a aquilo, ler isso ou aquilo, mas não ter de necessariamente engolir tudo a que se nos oferecem. É termos resguardadas a nossa capacidade de se indignar, de contrapor-se, de rebelar-se... Pensando assim, segui ao SAC.
Pausa.
O melhor, no entanto, foi agora, nesse dia chuvoso, lembrando-me desse episódio, encontrar-me sob essa percepção. Não a de me dizer leão, que nega, que enfrenta, que discorda, que reage, mas na fase da criança, que desponta. Até porque segundo esses pensadores, (Osho ou Nietzsche) as fases do camelo e do leão são passíveis de existirem mutuamente, ainda que ambos entendam ser muito mais comum encontrarmos camelos do que leões. Acrescentam ainda que “do camelo para o leão, trata-se de uma evolução. Do leão para a criança, trata-se de uma revolução.”
Lembrando ainda daquele dia: dirigi-me à Polícia Federal e, como na fase camelo, revelava toda a minha assimilação, vestia-me séria, com terninho preto, básico, discreto, maquiagem e cabelos impecáveis, como se deve proceder a uma postura séria perante uma autoridade. Aí o engraçado que me rio agora, uma hora o leão cansa de rugir, de bradar, é quando ele deixa de RE-agir (andar de ré, de certa forma) e simplesmente agir. Parecia-me feliz porque havia negado a assimilação alheia, acerca das coisas da novela global do momento, mas eu era tão camelo quanto, com relação a minha própria roupa, não fosse pelo fato, pelo detalhe, situação inusitada a que fui exposta.
A funcionária que atendia a uma pessoa que estava ao meu lado, virou-se para mim, inquieta que estava e finalmente destampou: “ei, não saia antes que te pergunte onde você comprou esses óculos lindos” . Mas, ora, ora, sorri. Senti-me lisonjeada, por chamar-lhe atenção para tanto. Ela devia mesmo estar achando uma coisa intrigante, uma pessoa aparentemente toda séria usando ali, óculos coloridos, roxo, lilás, “que cor é essa mesmo?”, perguntou.
Respondi-lhe tranquilamente onde o adquirira – para mim a idéia de autenticidade perpassa bem mais por quem usa e não pela unicidade da peça, (tipicamente uma fase leão em que se nega a portar-se igualmente aos demais) - e então, quando ela sorriu agradecida, completei pretenciosamente natural:
“Lilás é o novo preto.”
E ponto. E dei um sorriso Monalisa. E ainda fiquei ali o tempo ínfimo que me faltava para resolver minha pendência. E saí de lá. E certamente a deixei com alguma dúvida “quem é essa para dizer o que é o novo ou não?” ou como minha amiga Juli, perguntou-me depois:
“Quem disse isso ???”
“Ninguém – respondi. Ou melhor, eu. Eu posso tudo. E se eu quiser que seja o novo preto assim será. Segue-me quem quiser.”
“Ah é você pode, vc saiu na revista....” deu um sorriso maroto.
E rimos juntas.
Mas não por isso, mas por sentir-me na nova fase. Não na dependência do camelo, não na independência do leão, mas na “inocência da pessoa que descobre que não existe nem dependência nem independência. A vida é interdependência”. Nem o “sim”, nem o “não”, nem o “eu”, nem o “você”, mas a consciência do todo.
E no momento lilás dos meus óculos, permiti-me ser não a assimilação do passado, não a reação contra o que pode vir a acontecer, mas simplesmente permiti-me sentir plenamente o presente e pensar deliberadamente, eu decido o que é e o que não é em minha vida. Porque a “criança” simplesmente é.
*Livro do Osho: Liberdade – A coragem de ser você mesmo.
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Texto escrito numa tarde chuvosa de maio de 2009 e postado apenas hoje, agora que tenho um blog. E, mais que isso, tenho uma nova colega de trampo que não pára de me elogiar meus óculos coloridos.
Fica a dica, se a vida não nos dá tantas cores quantas queremos, façamos nós a nossa parte de enxergar através das cores que escolhemos.
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terça-feira, 22 de setembro de 2009
Como uma onda no mar...
Quis evitar seus olhos, mas não pude reagir... ok, eu não evitei os olhos azuis, mas evitei (e levitei com) seus olhares e suas observações. Pois bem, eis-me aqui para inaugurar (finalmente!) esse blog.
A idéia de blog como diário pessoal e particular não será de todo abolida, mas dificilmente também será impessoal e público. Digamos que uma ppp. Traduzindo: uma parceria público- privada.
Posso tê-lo, quiçá, não como um Diário Oficial - seja da União, dos Estados, Distrito Federal ou Municípios – mas sim como um Diário Oficioso. Como um ócio gostoso, a La Domenico De Masi. Um diário não-oficial, posto que me sinto impelida a escrever nos dias, momentos e noites menos oficiais de todos, como agora nesta madrugada!
Que seja da União: de propósitos, de bons intentos e inventos, desalentos, atentos ou não; dos Estados: dos mais diversos e paradoxais, desde o estado de percepção total do ser, de imersão plena no mundo e de coesão inabalável com o Universo, até os mais inquietantes estados de dúvidas, indignação, inconformismo ou incompreensão; seja também um diário do Distrito, restrito e reservado, Federal confederado, território do meu coração, ou, finalmente, dos munícipes, com múnus e manus, munido, manualmente feito, como obra de oblação a quem com ele se identificar.
Hoje, celebrei como há muito não fazia, o ritual de Ostara, para receber de braços abertos – e olhos, coração e alma - o florescer da Primavera. Um ritual de prosperidade, fartura e fertilidade, mas, sobretudo, um ritual de equilíbrio. Um marco nas estações do ano em que o dia e a noite se igualam, se completam de forma equânime. E mesmo eu, que não sou tão afeta a maniqueísmos, tenho de sucumbir a certos contrapostos, afinal não existira som / se não houvesse o silêncio / Não haveria luz / Se não fosse a escuridão / A vida é mesmo assim, Dia e noite, não e sim... É também preto no branco!. Como o é, inclusive, e que fique registrado meu encantamento, o apezinho lindo de Manu. E que pode sim ser considerado um templo, não apenas por ter acolhido nossas reverências às deidades da Natureza, mas porque, em sendo lar, é extensão da própria dona que, por sua vez, é igualmente templo em si mesma.
E eu também sendo templo, em tempo de Lua Nova, renovo mais uma vez o ciclo que, exatamente por ser cíclico, é sempre um começo novo. Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia... E se o que recomeça, inova, encanta e nos rouba o fôlego, sabe, é aquela coisa, é melhor não resistir e se entregar.
Então, fiquemos por aqui, que as horas voam e tudo passa, tudo sempre passará, ou como diria Mário Quintana: “eles passarão e eu passarinho”. Sim, eu passarinho, louca para encontrar meu ninho.
Algumas resoluções, algumas definições, mas, sobretudo, aquilo que por ora acredito, ficará aqui registrado. E eu já creio no amor, numa boa e vejo a vida mais clara e farta /repleta de toda satisfação / que se tem direito / do firmamento ao chão. Acredito na vida, pois. Como digo lá meu flog, Sempre é tempo, nunca, não. Nunca é ausência de tempo. E se nunca for certeza, toda certeza vã não sobrará.
Aqui, meu recado. Aqui meu blog, que sempre pairou em mim como uma idéia que existe na cabeça não tem a menor obrigação de acontecer.
Hoje, fazendo um tributo a Lulu, nas citações (inconfundíveis) de seus grandes sucessos, pelo show maravilhoso do findi (20/09,Concha Acústica do TCA) e porque se, de alguma forma, eu não puder fazer o bem ao trazer à tona meus pensamentos, como bem diz nosso querido romântico, para todo mal, a cura.
A idéia de blog como diário pessoal e particular não será de todo abolida, mas dificilmente também será impessoal e público. Digamos que uma ppp. Traduzindo: uma parceria público- privada.
Posso tê-lo, quiçá, não como um Diário Oficial - seja da União, dos Estados, Distrito Federal ou Municípios – mas sim como um Diário Oficioso. Como um ócio gostoso, a La Domenico De Masi. Um diário não-oficial, posto que me sinto impelida a escrever nos dias, momentos e noites menos oficiais de todos, como agora nesta madrugada!
Que seja da União: de propósitos, de bons intentos e inventos, desalentos, atentos ou não; dos Estados: dos mais diversos e paradoxais, desde o estado de percepção total do ser, de imersão plena no mundo e de coesão inabalável com o Universo, até os mais inquietantes estados de dúvidas, indignação, inconformismo ou incompreensão; seja também um diário do Distrito, restrito e reservado, Federal confederado, território do meu coração, ou, finalmente, dos munícipes, com múnus e manus, munido, manualmente feito, como obra de oblação a quem com ele se identificar.
Hoje, celebrei como há muito não fazia, o ritual de Ostara, para receber de braços abertos – e olhos, coração e alma - o florescer da Primavera. Um ritual de prosperidade, fartura e fertilidade, mas, sobretudo, um ritual de equilíbrio. Um marco nas estações do ano em que o dia e a noite se igualam, se completam de forma equânime. E mesmo eu, que não sou tão afeta a maniqueísmos, tenho de sucumbir a certos contrapostos, afinal não existira som / se não houvesse o silêncio / Não haveria luz / Se não fosse a escuridão / A vida é mesmo assim, Dia e noite, não e sim... É também preto no branco!. Como o é, inclusive, e que fique registrado meu encantamento, o apezinho lindo de Manu. E que pode sim ser considerado um templo, não apenas por ter acolhido nossas reverências às deidades da Natureza, mas porque, em sendo lar, é extensão da própria dona que, por sua vez, é igualmente templo em si mesma.
E eu também sendo templo, em tempo de Lua Nova, renovo mais uma vez o ciclo que, exatamente por ser cíclico, é sempre um começo novo. Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia... E se o que recomeça, inova, encanta e nos rouba o fôlego, sabe, é aquela coisa, é melhor não resistir e se entregar.
Então, fiquemos por aqui, que as horas voam e tudo passa, tudo sempre passará, ou como diria Mário Quintana: “eles passarão e eu passarinho”. Sim, eu passarinho, louca para encontrar meu ninho.
Algumas resoluções, algumas definições, mas, sobretudo, aquilo que por ora acredito, ficará aqui registrado. E eu já creio no amor, numa boa e vejo a vida mais clara e farta /repleta de toda satisfação / que se tem direito / do firmamento ao chão. Acredito na vida, pois. Como digo lá meu flog, Sempre é tempo, nunca, não. Nunca é ausência de tempo. E se nunca for certeza, toda certeza vã não sobrará.
Aqui, meu recado. Aqui meu blog, que sempre pairou em mim como uma idéia que existe na cabeça não tem a menor obrigação de acontecer.
Hoje, fazendo um tributo a Lulu, nas citações (inconfundíveis) de seus grandes sucessos, pelo show maravilhoso do findi (20/09,Concha Acústica do TCA) e porque se, de alguma forma, eu não puder fazer o bem ao trazer à tona meus pensamentos, como bem diz nosso querido romântico, para todo mal, a cura.
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