Estava no Shopping, precisava resolver pendências jurídicas no SAC (Serviço de Atendimento ao cidadão que une a um só tempo juizados, cartórios, junta comercial, etc). Não sou muito fã de Shopping, mas admito que é um lugar prático e de certo modo inspirador, considerando as vitrines impecáveis ou a rentabilidade das lojas populares ou mesmo aquelas pessoas que por ali transitam como se fosse seu habitat natural, mas não quero aqui analisar o que muitos chamam de “templo de consumo”, aliás, nem pensava nisso quando avistei uma loja de que gosto muito. Lembrei-me de que queria uma camisa básica, ou mesmo uma camiseta para colocar por sob o blazer e adentrei a loja. O vendedor reconheceu-me, sorriu e aproximou-se prontamente para cumprimentar-me. Não, não sou de bater ponto por ali, muito embora admire bastante as roupas e produtos de lá, o meu bolso é que não admira tanto. Whatever, realmente sei que ele não esquecera a última vez em que estive por lá, mas aí são outros quinhentos. O fato é que lhe pedi para ver o que ele tinha em matéria de “básicas” e ele me disse: “Ah, agora, temos apenas algumas estampadas, talvez não sirvam para o que quer” foi quando eu me deparei com uma estampando a imagem de Ganesha e desabafei:
“Eu tenho de concordar com alguns intelectuais, ‘o que seria do Brasil, sem rede Globo?’, arfff agora tudo é Lord Ganesha, Shakiti, Shanti, Hare Baba!! Quem agüenta?”
Ele riu, mas retrucou: “ Não, não. É apenas uma coleção temática, temos também de outros países, como essa com Camelos em homenagem à Arábia”...
Enfim, que seja, mas concordamos que havia sentido naquela afirmação, pois só havia um único exemplar da homenagem indiana, enquanto todas as outras ainda enchiam a arara...
Mas aí pensando em Camelo, lembrei-me de um livro de Osho* que eu comprara há alguns anos na livraria da Rodoviária, quando fazia a rota Salvador-Alagoinhas semanalmente. Muitas vezes, a única coisa funcionando de manhã cedo além da lanchonete, era o misto de banca de revistas e livraria e, como me ensinara meu amigo Teoda, não havia lugar melhor para se gastar pouco e se informar muito – ainda que superficialmente - do que uma banca de revista. Seguindo esse raciocínio, melhor então seria uma banca-livraria em que se podia, além de ver as capas de revistas e jornais, folhear alguns livros. Melhor também é que eu não estava desempregada (como estávamos à época) e podia comprar alguns exemplares e, assim, ir um pouco além das manchetes, sem contar que sempre dispunha de um certo tempo ocioso antes que meu ônibus chegasse. E naquela rodoviária, eu sonolenta, começava algumas leituras interessantes. Foi assim que conheci esse livro de Osho no qual citava a história do Camelo.
Na verdade, o que Osho nos conta é uma alusão a Nietzsche, que compara as fases evolutivas do homem ao que ele chamava de fase do camelo, do leão e da criança, numa metáfora muito interessante. E nos ensina:
“Cada ser humano tem de absorver e assimilar a herança cultural de sua sociedade – a sua cultura, a sua religião, a sua gente. Ele tem de assimilar tudo o que o passado disponibilizou. Tem de assimilar o passado; é isso que Nietzsche chama de estágio de camelo. O camelo tem a capacidade de armazenar no seu corpo enormes quantidades de comida e água, para sua extenuante jornada pelo deserto.”
E continua explicando que essa é também a situação do individuo humano e quando assimilamos o passado, ficamos livres dele. O que é diferente de memorizar, porque assimilar, tal como fazemos ao assimilar a comida que ingerimos, é não pensar mais nela. Isso porque ela já se incorporou de tal forma em nós que se tornou parte de nós, nosso sangue, nossos ossos, enfim.
O interessante é pensar que ele nos ensina que apesar dessa capacidade impressionante do camelo, isso é apenas o primeiro estágio. Depois ainda temos o estágio do leão, “porque o chega uma hora em que o camelo tem de seguir em frente e tornar-se leão”, é quando ele reage a toda a autoridade. Então o leão é uma reação ao camelo.
Deve ter sido com esse pensamento que saí da loja, a que eu admirava tanto pela capacidade de transformação, pensando no estágio camelo e me propondo a ser o estágio leão. Quando “o indivíduo descobre sua própria luz interior como fonte suprema de todos os valores autênticos” e quando “toma consciência da sua obrigação básica com relação à sua própria criatividade interior” citando agora os trechos de Osho, mas, por óbvio, naquele momento lembrava-me apenas que o estágio do camelo, por ser o da assimilação, não sabe dizer não. E aí volta a frase dos intelectuais. É que problema não é assistir a isso ou a aquilo, ler isso ou aquilo, mas não ter de necessariamente engolir tudo a que se nos oferecem. É termos resguardadas a nossa capacidade de se indignar, de contrapor-se, de rebelar-se... Pensando assim, segui ao SAC.
Pausa.
O melhor, no entanto, foi agora, nesse dia chuvoso, lembrando-me desse episódio, encontrar-me sob essa percepção. Não a de me dizer leão, que nega, que enfrenta, que discorda, que reage, mas na fase da criança, que desponta. Até porque segundo esses pensadores, (Osho ou Nietzsche) as fases do camelo e do leão são passíveis de existirem mutuamente, ainda que ambos entendam ser muito mais comum encontrarmos camelos do que leões. Acrescentam ainda que “do camelo para o leão, trata-se de uma evolução. Do leão para a criança, trata-se de uma revolução.”
Lembrando ainda daquele dia: dirigi-me à Polícia Federal e, como na fase camelo, revelava toda a minha assimilação, vestia-me séria, com terninho preto, básico, discreto, maquiagem e cabelos impecáveis, como se deve proceder a uma postura séria perante uma autoridade. Aí o engraçado que me rio agora, uma hora o leão cansa de rugir, de bradar, é quando ele deixa de RE-agir (andar de ré, de certa forma) e simplesmente agir. Parecia-me feliz porque havia negado a assimilação alheia, acerca das coisas da novela global do momento, mas eu era tão camelo quanto, com relação a minha própria roupa, não fosse pelo fato, pelo detalhe, situação inusitada a que fui exposta.
A funcionária que atendia a uma pessoa que estava ao meu lado, virou-se para mim, inquieta que estava e finalmente destampou: “ei, não saia antes que te pergunte onde você comprou esses óculos lindos” . Mas, ora, ora, sorri. Senti-me lisonjeada, por chamar-lhe atenção para tanto. Ela devia mesmo estar achando uma coisa intrigante, uma pessoa aparentemente toda séria usando ali, óculos coloridos, roxo, lilás, “que cor é essa mesmo?”, perguntou.
Respondi-lhe tranquilamente onde o adquirira – para mim a idéia de autenticidade perpassa bem mais por quem usa e não pela unicidade da peça, (tipicamente uma fase leão em que se nega a portar-se igualmente aos demais) - e então, quando ela sorriu agradecida, completei pretenciosamente natural:
“Lilás é o novo preto.”
E ponto. E dei um sorriso Monalisa. E ainda fiquei ali o tempo ínfimo que me faltava para resolver minha pendência. E saí de lá. E certamente a deixei com alguma dúvida “quem é essa para dizer o que é o novo ou não?” ou como minha amiga Juli, perguntou-me depois:
“Quem disse isso ???”
“Ninguém – respondi. Ou melhor, eu. Eu posso tudo. E se eu quiser que seja o novo preto assim será. Segue-me quem quiser.”
“Ah é você pode, vc saiu na revista....” deu um sorriso maroto.
E rimos juntas.
Mas não por isso, mas por sentir-me na nova fase. Não na dependência do camelo, não na independência do leão, mas na “inocência da pessoa que descobre que não existe nem dependência nem independência. A vida é interdependência”. Nem o “sim”, nem o “não”, nem o “eu”, nem o “você”, mas a consciência do todo.
E no momento lilás dos meus óculos, permiti-me ser não a assimilação do passado, não a reação contra o que pode vir a acontecer, mas simplesmente permiti-me sentir plenamente o presente e pensar deliberadamente, eu decido o que é e o que não é em minha vida. Porque a “criança” simplesmente é.
*Livro do Osho: Liberdade – A coragem de ser você mesmo.
----------------------------
Texto escrito numa tarde chuvosa de maio de 2009 e postado apenas hoje, agora que tenho um blog. E, mais que isso, tenho uma nova colega de trampo que não pára de me elogiar meus óculos coloridos.
Fica a dica, se a vida não nos dá tantas cores quantas queremos, façamos nós a nossa parte de enxergar através das cores que escolhemos.
Mostrando postagens com marcador shopping caminhada filosófica óculos lilás. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador shopping caminhada filosófica óculos lilás. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)
